E. A. Gomes - Paixão de Homem Casado na Idade do Lobo

Na grande fábrica de roupas onde eu trabalhava, havia cerca de três mil mulheres. Na qualidade de homem casado, mas carente de afeto, eu temia a possibilidade de me apaixonar por uma delas.

Depois de dezoito anos carregando a bandeira de homem fiel, pude perceber que ali havia chegado uma moça diferente para os meus olhos. E a partir daquele dia senti que alguma coisa estava errada em mim, pois algo nela me atraía. Era como se eu tivesse encontrado um ser da mesma espécie que a minha, num mundo de seres diferentes. Era morena, pequena e tinha os cabelos encaracolados. Seu rosto tinha uma expressão firme, serena e enigmática.

Aquela moça já fazia parte do meu imaginário. Eu a reconheci como a mulher que frequentemente ocupava os meus pensamentos, que nos momentos de nostalgia, entre tragos e canções, imaginava que algum dia, em algum lugar, eu iria encontrar.

O destino a tinha colocado perto dos meus olhos. Mas com o passar dos dias, pude perceber que eu estava longe, muito longe do seu coração. O olhar distante, às vezes triste, nunca percebia a minha existência. Mantive-me afastado, até o dia em que vi uma frase escrita na sua mesa de trabalho: “Eu tenho tristeza”. Confirmava-se assim, que realmente éramos seres da mesma espécie.

Eu não tinha nem uma qualidade para ser um Don Juan, mas a partir daquele dia, eu queria ser tudo, para deixar de ser nada, diante dos olhos dela.